Tema Principal
Aconteceu na Casa Espírita – 3
I – Nota em Sessão
Quando Anastácio, o Diretor encarnado da Reunião Mediúnica, encaminhava as tarefas da noite para a fase terminal, comunicou-se o Irmão Silvério, Espírito Guia do Centro Espírita, para as instruções de costume.
Apontamento vai, apontamento vem, e Anastácio, na função de Doutrinador, desfechou curiosa pergunta ao amigo desencarnado: Irmão Silvério, com o devido respeito, desejávamos colher a sua opinião em torno de grave assunto que admitimos seja problema não somente para nós, nesta Casa, mas para a maioria dos grupos semelhantes ao nosso…
Referimo-nos aos Médiuns, depois de iniciados na Tarefa Espírita. Porque tantas dificuldades para conservá-los em ação? Quantas vezes temos visto companheiros de excelente começo, e outros, até mesmo com o merecimento de obras consolidadas, abandonarem o serviço, de um momento para outro?… Uns foram curados de aflitivas obsessões, outros abraçaram o Apostolado, em plenitude de madureza do raciocínio…
Esposam benditas responsabilidades, de coração jubiloso, e principiam a trabalhar, corajosos e felizes…
Surge, porém, um dia em que tudo ou quase tudo largam, de quanto prossigam credores de nossa maior consideração pela vida respeitável e digna de que dão testemunho, seja no lar ou na profissão. Como explicar semelhante fenômeno?
Silvério,o Espírito Guia anotou, através do Médium: Meu irmão, estamos em combate espiritual, o combate da Luz contra as Trevas. Muitos de nossos aliados sofrem pesada ofensiva por parte das forças que nos são contrárias, e é razoável que deixem a posição, quando já não mais suportem o assédio… somos, então, obrigados a compreendê-los e a favorecer-lhes a retirada, embora lhes valorizemos a colaboração, com as nossas melhores reservas afetivas.
Sim, entendo, acentuou o inquieto companheiro do plano físico, entendo que os Agentes da Sombra nos espiam e nos hostilizam, no intuito de arrasar-nos… Mas, porque essa perseguição? Não estamos nós do lado da Luz? Não somos chamados a confiar em Deus? Acaso, não nos achamos vinculados aos princípios do Bem Eterno? Não nos situamos, porventura, sob a vigilância de nossos Instrutores da Vida mais Alta? O Espírito amigo sorriu e replicou, paciente: Anastácio, ontem à noite estive em serviço de socorro às vítimas de alguns malfeitores encarnados, numa casa de entretenimentos públicos. Os nossos infelizes irmãos, para atenderem aos baixos intentos de que se viam possuídos, fixaram-se, antes de tudo, no propósito de apagarem a luz no recinto, a fim de operarem sob regime de perturbação, no clima das Trevas.
Avançaram para as lâmpadas vigorosas que alumiavam a casa e, para logo, inutilizaram-lhes a capacidade de serviço, tumultuando aquele ambiente. Depois de darem muito trabalho aos policiais, estes, finalmente, restabeleceram a normalidade.
Como você pode avaliar, o apoio elétrico não se modificou na retarguada, não impedindo que as lâmpadas fossem substituídas para que se recuperasse a iluminação. Assim também, meu caro, em nossas realizações Espíritas. Os elementos da Sombra, interessados em “Vampirizar a Humanidade”, visam, sobretudo, a anular os Médiuns que iluminam e, notadamente, os de maior responsabilidade, de maneira que possam dominar com os inferiores desígnios que lhes caracterizam as lamentáveis disputas.
Depois de formarem o tumulto e a Treva de Espírito, reclamam grande esforço dos Emissários de Jesus para que a Harmonia se refaça no serviço regular de nossa Doutrina Renovadora.
Apesar de tudo isso, porém, é preciso reconhecer que a ordem se reconstitui sempre para a vitória do bem de todos. Entende você?
Sim… , reticenciou o Doutrinador, e aduziu: Mas, que fazer para melhorar a situação?
E Irmão Silvério rematou com serenidade e otimismo: Paciência e Serviço, meu caro, Paciência e Serviço cada vez mais. Assim como, em qualquer desastre da iluminação comum, a usina, os técnicos e a eletricidade prosseguem inalteráveis, também nos acidentes do intercâmbio espiritual, Deus, os Bons Espíritos e as Leis Divinas são invariavelmente os mesmos… Quanto às lâmpadas, é imperioso substituí-las, toda vez que não mais se ajustam à tomada de força, até que o progresso nos ofereça material de valor fixo… Compreendeu a lição?
Anastácio sorriu por sua vez, demonstrando haver compreendido, e encerrou a sessão.
II – No Dia das Tarefas
Quem descreveria o encanto daquele grupo de corações entusiastas na fé? O Irmão Celestino edificarao, a pouco e pouco. Cinco anos consecutivos de trabalho e devotamento.
Campeão da bondade no Plano Espiritual, Celestino encontrara na Médium Dona Silene uma companheira de ação, extremamente dedicada ao serviço do bem. Viúva, desde muito jovem, consagrara-se ao amparo dos semelhantes e, por sua vez, granjeara em Celestino um amigo fiel. Ambos haviam levantado aquela doce equipe de Obreiros da Oração com inexcedível carinho. Reuniões de prece e auxílio Espiritual nas noites de segundas e sextas-feiras.
Consultas afetivas a Celestino e respostas abençoadas, criando esperança e reconforto. E, depois dos contactos terrestres, eis o denodado irmão a diligenciar obter, aqui e além, determinadas concessões, a benefício dos companheiros encarnados: A atenção de algum médico amigo para suprimir as enxaquecas de Dona Alice; a cooperação de zeladores desencarnados, em socorro dos meninos de Dona Zizinha em dificuldades na escola; o apoio de benfeitores para a solução dos problemas frequentes de João Colussi, o alfaiate; a vigilância de enfermeiros devotados para a filha doente de Dona Cacilda, e providências outras, diferentes e múltiplas, de semana em semana, a favor do pessoal.
E o pessoal do agrupamento não lhe regateava admiração: Espírito amigo como poucos!… Enunciava Sisenando, o contador muitas vezes por ele beneficiado.
Devo a Irmão Celestino o que jamais pagarei!… acentuava Armando Ribeiro, o tipógrafo.
Protetor extraordinário!… afirmava Dona Maristela, que a generosidade do amigo espiritual soerguera de fundo abatimento,……….. para mim, é um pai que não posso esquecer……
Creio que não teremos neste mundo um credor tão importante assim!… aduzia Dona Raimunda Peres, a quem o samaritano desencarnado restituíra a alegria de viver.
Em clima de trabalho incessante para Celestino, no Plano Espiritual, e de incessante para Celestino, no Plano Espiritual, e de incessante louvação para ele, no conjunto humano, transcorreram sessenta meses
…………..Por isso, na noite do quinto aniversário das reuniões, a sala de Dona Silene mostrava belo aspecto festivo. Flores, legendas, panos caprichosamente bordados, músicas para meditação…………..
Chegado o momento do intercâmbio espiritual, depois de preços e saudações efusivas, Celestino controlou o aparelho mediúnico de Dona Silene e falou sensibilizado: Reportou-se aos dias do começo, aos favores obtidos do Alto, às oportunidades de trabalho, às alegrias da solidariedade.
Finalizando a preleção comovente, apelou:
Agora, meus irmãos, estamos na época da distribuição das tarefas. A nossa Doutrina Espírita revive o ensinamento de Jesus em sua pureza original, e o ensinamento de Jesus, acima de tudo, se baseia no “Serviço ao Próximo”. Estamos cercados de irmãos sofredores que, desde muito tempo, aspiram à comunhão conosco… Aqui, são doentes que esperam por uma frase de coragem; ali, são desesperados que suplicam o benefício de uma prece; mais além, são necessitados de recursos materiais que anseiam por migalha da cooperação que lhes podemos prestar; mais adiante, vemos crianças requisitando cuidados para não tombarem na desencarnação prematura… E a Evangelização? muita gente de todas as idades conta conosco, a fim de saber o porquê do sofrimento, das aparentes desigualdades da vida!… Convidamos, assim, a todos os nossos amigos aqui congregados para formarmos uma Equipe de Tarefeiros, com responsabilidades definidas, no serviço aos semelhantes…………. Cada um se encarregará de um Setor de Trabalho, na esfera dos recursos que lhe sejam próprios. Seremos um grupo legalmente constituído, do ponto de vista terrestre, com Dirigentes e Dirigidos, cada qual, porém, servindo à causa da Humanidade, em horários previamente estabelecidos.
Decerto, precisaremos da Disciplina, porquanto as nossas obrigações serão muitas: Recém-nascidos indigentes, enfermos abandonados, obsessos, mendigos, velhinhos sem ninguém, todos os nossos irmãos ao desamparo acharão o socorro possível em nossa casa.
Com o Amparo Divino, trabalharemos…
Ao término, o devotado mentor, em júbilo manifesto, marcou a semana próxima para a discriminação dos encargos com que todo o conjunto seria honrosamente distinguido, a meio de promessas comovedoras e votos brilhantes.
Sobrevindo a próxima reunião assinalada para a distribuição de tarefas, irmão Celestino chegou entusiasmado e confiante ao Templo Doméstico, notando, porém, que ao lado de Dona Silene, em prece, “não havia ninguém mais no Centro Espírita”.
III – O Compromisso Assumido no Mundo Espiritual
Chamados ao concurso fraterno, em auxílio de pequeno grupo familiar, fustigado por doloroso caso de obsessão, Instrutores Espirituais amigos nos indicaram alguém no plano físico, que poderia colaborar conosco. Alberto Nogueira, a pessoa certa. Médium que reencarnara, trinta e seis anos antes, sob o amparo do Núcleo Espiritual de que partiria a nossa expedição socorrista.
Tratando-se de companheiro que ainda não conhecíamos, em sentido direto, meu amigo Saturnino e eu, atendendo à recomendação de companheiros outros, fomos compulsar-lhe a “Ficha”, ou melhor, o “Processo” que lhe dera origem à existência atual, com Tarefa Mediúnica de permeio.
Engolfados na consulta, lemos comovidamente a súplica do próprio Alberto, antes do renascimento, ali nas primeiras folhas da curiosa documentação:
Senhor Jesus!
Conheço a minha posição de Espírito delinquente e, por isso, rogo a vossa permissão para tornar ao campo terrestre, de modo a resgatar minhas faltas. Pequei contra as Leis de Deus, oh! Divino Tutor de nossas almas, e fomentei intrigas nas quais, a mando meu, pereceram dezenas de criaturas. Destruí lares, abusando da autoridade de que me assenhoreei por atos de rapina, e perverti a inteligência, patrocinando o furto e o crime, a espalhar a fome e o sofrimento, entre os meus irmãos da Humanidade! Concedei-me a volta ao corpo terrestre, Senhor, com os necessários recursos da provação depuradora!
Quero que a lepra me desfigure, a fim de que eu pague com lágrimas constantes as feridas que abri nos corações indefesos! Quero padecer o abandono dos entes mais queridos, para que eu possa aprender quanto dói a deserção dos compromissos abraçados.
Rogo, Senhor, se tanto for preciso, que eu passe pela extrema penúria, esmolando o pão que me alimente e a veste que agasalhe as feridas que mereço! Se julgardes mais conveniente à minha depuração, dai-me a loucura ou a cegueira para que eu possa expiar minhas faltas, seja nas angústias do hospício ou nas meditações agoniadas da sombra!… Compreendo a extensão de meus débitos, e, se considerardes que devo apagar-me num cérebro incapaz ou retardado, fazei-me essa concessão! Seja através de calvários morais ou pelos mais detestados tormentos físicos, valei-me, Senhor, e dai-me novo corpo na Terra.
Quero chorar, lavando com lágrimas de fogo as nódoas de meu passado e expor-me às mais duras humilhações a fim de regenerar minha vida!
Senhor, concedei-me as aflições de que me vejo necessitado e anulai em mim qualquer possibilidade de reação! Fazei-me padecer, mas fazei-me viver novamente entre os homens! Quero corrigir-me, recomeçar! Bendito seja o vosso nome, Senhor! Bendita a vossa mão que me salva e guia!
Por baixo do requerimento comovedor, vinha a assinatura daquele que adotava agora no mundo a personalidade de Alberto Nogueira e, logo após, lia-se o magnânimo despacho da “Autoridade Superior” que determinava, em nome do Cristo de Deus: O Senhor pede Misericórdia, não Sacrifício. O interessado resgatará os próprios débitos, em vida normal, com as tarefas naturais de um lar humano e de uma família, em cujo seio encontrará os contratempos justos e educativos para qualquer criatura com necessidades de reequilíbrio e aprimoramento, mas, por Misericórdia do Senhor, será Médium Espírita, com a obrigação de dar, pelo menos, oito horas de serviço gratuito por semana, em favor dos irmãos necessitados da Terra, “Consolando-os e Instruindo-os”, na condição de “Instrumento dos Bons Espíritos” que operam a transformação do mundo, em nome de Nosso Senhor Jesus-Cristo. Desse modo, assumirá compromisso aos “Trinta Anos de Idade” (mesma idade do início do Apostolado do Divino Mestre), na existência próxima, e praticará a Mediunidade com o Evangelho de Jesus, até os sessenta, quando se lhe encerrarão as oportunidades de trabalho e elevação, resgatando, assim, em “Atividade de Amor”, os débitos que teria fatalmente de pagar através do sofrimento.
Louvado seja o Senhor!
Diante de páginas tão expressivas, decerto Saturnino e eu não precisaríamos alongar anotações.
Partimos, no encalço do Seareiro do Bem, com escala pela moradia que a obsessão atormentava. Penetrando a cidade em que se nos situaria o serviço programado e atingindo a casa em que deveríamos trabalhar, vimos, para logo, uma jovem vampirizada por infeliz irmão, desde muito tempo habituado à perturbação no “Reino das Sombras”.
Imprescindível socorrer a menina ingênua, alertar-lhe a mente, sacudir-lhe as forças profundas da alma, com informações e instruções suscetíveis de libertá-la. Nada de perder tempo.
Depois de uma prece, conseguimos influenciar a genitora da enferma, colocando-a, com a filha obsidiada, a caminho do Templo Espírita Cristão (Centro Espírita), onde Alberto Nogueira estaria em serviço, na Evangelização da noite, segundo dados recolhidos por nós na Esfera Superior.
Entre aflição e desapontamento, não o encontramos no lugar indicado. Formulando indagações, por via telepática, ao simpático Dirigente da Casa, esclareceu-nos ele, em pensamento, que o amigo referido abandonara a pontualidade e aparecia raramente.
Surgira o impasse, de vez que para auxiliar, no momento, precisávamos de Alberto. Munidos das informações necessárias, logramos situar, novamente, mãe e filha conosco, à procura dele. Vinte horas e vinte minutos. Achamo-lo em bonita varanda, lendo um jornal do dia, em larga espreguiçadeira.
Inspirada por nós, a desvalida senhora solicitou-lhe a colaboração mediúnica em socorro à doente. Humilhou-se, rogou, chorou, mas Nogueira respondeu, inflexível:
Não, senhora, não lhe posso ser útil. Realmente por dois longos anos servi na condição de Médium, nas obras de caridade. Finalmente, adoeci… Aliás, não sei se adoeci ou se me cansei. A senhora sabe, um homem que é pai de família, como eu, com deveres enormes a cumprir, tem que zelar pela própria saúde… Preciso defender-me…
E porque a infortunada mãe insistisse, atendendo-nos aos rogos, rematou numa tirada humorística: A única criatura que trabalha, dando de si sem pensar em si, que eu saiba até agora, é só o “burro”. Saímos como entramos, carregando o mesmo problema, a mesma inquietação. Aquele Espírito valoroso que pedira lepra, cegueira, loucura, idiotia, fogo, lágrimas, penúria e abandono, a fim de desagravar a própria consciência, no plano físico, depois de acomodar-se nas “Concessões do Senhor”, esquecera todas as necessidades que lhe caracterizavam a obra de reajuste e preferia a ociosidade, enquadrado em pijama, com preguiça de trabalhar.
IV – A Difícil Vida de um Guia Espiritual
Necessitando melhorar conhecimentos de orientação, acompanhei um dia de serviço do Guardião Aurelino Piva, Espírito amigo que desempenha a função de Guia comum da senhora Sinésia Camerino, dama culta e distinta, domiciliada em elegante setor do mundo paulista.
Cabia-me aprender como ajudar alguém, individualmente, na posição de desencarnado. Auxiliar em esforço anônimo, exercer o amor silencioso e desconhecido.
Cheguei cedo à residência, cujo pequeno jardim a primavera aformoseara. Quatro horas da manhã, justamente quando Aurelino preparava as forças de sua protegida para o dia nascente. Trabalho de humildade e devotamento.
Na véspera, dona Sinésia não estivera tão sóbria ao jantar. Excedera-se em quitutes e licores, mas o amigo espiritual erguia-se em piedosa sentinela e, antes que a senhora reabrisse os olhos no corpo, aplicava-lhe passes de reajuste.
– É preciso que nossa irmã desperte tão hígida quanto possível – explicou-me.
E sorrindo:
– Um dia tranquilo no corpo físico é uma bênção que devemos enriquecer de harmonia e esperança. Depois de complicada operação magnética, observei que a tutelada se dispunha a movimentar-se, e esperei.
Seis horas da manhã.
Aurelino formulou uma prece, rogando ao Senhor lhe abençoasse a nova oportunidade de trabalho e tive a ideia de tornar a escutar-lhe as palavras confortadoras: “Um dia tranquilo no corpo físico é uma bênção…”
A senhora acordou e o Benfeitor Espiritual postou-se ao lado dela, à feição de pai amoroso, falando-lhe dos recursos imensos da vida que estuavam lá fora, como a buscar-lhe o coração para o serviço com alegria. Dona Sinésia ouvia em pensamento e, qual se dialogasse consigo mesma, recusava a mensagem de otimismo e respondeu às benéficas sugestões, resmungando: “Dia aborrecido”, “tempo sem graça…”
Nisso, dois meninos altercaram, lá dentro, com a empregada. Bate-boca em família. Dona Sinésia não se mexeu. Sabia que os dois filhos manhosos nada queriam com estudo, nem suportavam qualquer disciplina, mas não deu bola.
Aurelino, porém, correu à copa e eu o acompanhei. O amigo desencarnado apaziguou as crianças e acalmou a servidora da casa, à custa de apelos edificantes. Ajudou os pequenos a encontrarem os cadernos de exercícios escolares que haviam perdido e acompanhou-os até o ônibus.
De volta ao interior doméstico, chegou a vez de se amparar o esposo de dona Sinésia, que deixara o quarto sob grande acesso de tosse. Bronquite velha. Um Guardião Espiritual, ligado a ele, auxiliava-o, presto; no entanto, Aureliano pensou na tranquilidade de sua protegida e entregou-se à tarefa de colaboração socorrista. Passes, insuflações. O chefe da família estava nervoso, abatido. Aurelino não repousou enquanto não lhe viu o Espírito asserenado, diante da empregada, a quem auxiliou de novo, a fim de que o café com leite fosse servido com carinho e limpeza.
Logo após, demandou o grande aposento, em que iniciáramos a tarefa, rogando a dona Sinésia viesse à copa abençoar o marido com um sorriso de confiança. A dama escutou o convite suplicante, através da intuição, mas ficou absolutamente parada sob os lençóis, e, ouvindo o esposo a pigarrear, na saída, comentou intimamente: “Não vou com asma, estou farta”.
Sete horas. Aurelino estugou o passe a fim de sustentar o senhor Camerino, na travessia da rua. Explicou-me que dona Sinésia precisava de paz e, em razão disso, devia ajudar-lhe o marido com as melhores possibilidades de que dispunha. E, atencioso, deu a ele, na espera da condução, ideias de tolerância e caridade, bom ânimo e fé viva para compreender as suas dificuldades de contador na firma a que se vincula.
Regressamos a casa. Dona Sinésia em descanso. Oito horas, quando se levantou. Aurelino sugeriu-lhe o desejo de tomar água pura e informou-me de que se esmerava em defendê-la contra intoxicações. Magnetizou o líquido simples, dotando-o de qualidades terapêuticas especiais e……. continuaram serviços e preocupações.
Trabalho de proteção para dona Sinésia, em múltiplas circunstâncias pequeninas suscetíveis de gerar grandes males; apoio à empregada de dona Sinésia, para que não falhassem minudências na harmonia do lar; remoção de obstáculos a fim de que contratempos não viessem perturbar a calma de Dona Sinésia; socorro incessante às crianças de dona Sinésia, ao retornarem da escola; cooperação indireta para que dona Sinésia escolhesse os pratos capazes de lhe assegurarem a necessária euforia orgânica; inspirações adequadas de modo a que dona Sinésia encontrasse boas leituras; amparo constante ao senhor Camerino, tanto quanto possível, a fim de que dona Sinésia não se afligisse…
Enfim, dona Sinésia, sem a obrigação de ser agradecida, já que não identificava os benefícios contínuos que recebia, teve um dia admirável, enquanto Aurelino e eu estávamos realmente estafados, não obstante a nossa condição de Espíritos sem corpo físico.
À noite, porém, justamente quando Aurelino se sentou ao meu lado para dois dedos de prosa, dona Sinésia, desatenta, feriu o polegar da mão esquerda com a agulha que manejava para enfeitar um vestido. Bastou isso e a senhora desmandou-se aos gritos:
– Oh! meu Deus! meu Deus!… ninguém me ajuda! Vivo sozinha, desamparada!… Não há mulher mais infeliz do que eu!…
Positivamente assombrado, espiei Aurelino, que se mantinha imperturbável, e observei:
– Que reação é esta, meu amigo? Dona Sinésia recolheu socorro e bênçãos durante o dia inteiro!… como justificar este ataque de cólera por picadela sem importância nenhuma?…..
Aurelino, entretanto, sorriu e falou paciente:
– Acalme-se, meu caro. Auxiliemos nossa irmã a reequilibrar-se. Esta irritação não há de ser nada. Ela também, mais tarde, vai desencarnar como nós, e será um Guia Espiritual…………….
Fonte
Estante da Vida – Humberto de Campos e Chico Xavier, FEB, 1969.
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